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O que fazer quando viver se torna difícil?

Foto do escritor: Silvia Ribeiro Martins
Silvia Ribeiro Martins
30 de set.
5 min de leitura

Setembro Amarelo chega e com ele a gente reforça uma conversa que acontece durante o ano inteiro dentro dos consultórios. Confesso que eu deixei para escrever este texto só agora (sim, último dia do mês) porque tenho ficado muito reflexiva sobre esse tema. Quis pensar de que forma eu poderia ajudar através das palavras, tanto quem está passando por isso, que é a pessoa mais importante dessa conversa, quanto quem está ao lado e pode fazer alguma coisa também.

Buscar ajuda nem sempre começa com alguém sabendo exatamente o que sente ou o que precisa fazer. Muitas pessoas chegam depois de passar muito tempo tentando dar conta sozinhas. Tentaram continuar a rotina, resolver os problemas, suportar a dor, esperar melhorar, até que chega um momento em que conseguem dizer: “Eu não estou conseguindo”. E para algumas pessoas, a frase mais difícil de ser dita: “Eu não quero mais viver”.

É preciso muita atenção ao que vem depois disso, porque quando alguém pensa em morrer é natural que quem está por perto queira rapidamente mostrar tudo que aquela pessoa tem para viver: a sua família, os filhos, os amigos, os planos, as coisas boas que já aconteceram. Porém, uma pessoa pode saber de tudo isso e continuar sofrendo. Pode amar e estar cansada, pode ser amada e não conseguir enxergar uma saída. Pode reconhecer coisas boas na própria vida e ao mesmo tempo, sentir uma dor tão grande que não consegue imaginar continuar vivendo daquela forma. Uma coisa não anula a outra.

Por isso, antes de tentar convencer alguém de que sua vida vale a pena, penso que precisamos conseguir compreender o que tornou essa vida tão difícil de ser vivida. Tem uma história antes de alguém chegar ao ponto de desejar morrer. Tem coisas que aconteceram, outras que foram se acumulando, tentativas que não funcionaram, perdas, frustrações e um cansaço que pode ser difícil de explicar para quem está olhando de fora.

E é aqui que essa conversa pode começar a mudar. Se viver dessa forma se tornou insuportável, o que precisaria ser diferente para que você quisesse continuar vivendo? Essa é uma pergunta que não tenta apagar a realidade. Se está doendo, está doendo. Se você está cansado, está cansado. Se chegou ao ponto de não saber mais o que fazer, isso precisa ser levado a sério. Mas aquilo que está acontecendo agora não precisa definir tudo o que a sua vida pode ser.

Uma vida que vale a pena ser vivida não é uma vida perfeita, também não é uma vida sem dor, perdas ou problemas. É uma vida que, mesmo sendo imperfeita, possa fazer sentido para quem a vive. E isso se constrói. Pode ser necessário tratar o que precisa ser tratado, mudar aquilo que precisa ser mudado, aprender a lidar com o que não está sob o nosso controle, reconstruir relações, criar outras, descobrir novos interesses, voltar a fazer planos. Pode ser necessário começar por algo muito menor: reconhecer que sozinho está difícil e permitir que alguém ajude.

Tem um pressuposto da Terapia Dialética que eu gosto muito e carrego para além do consultório: uma pessoa pode estar fazendo o melhor que consegue e ao mesmo tempo, precisar aprender outras formas de lidar com aquilo que está vivendo. Isso não diminui tudo o que ela já tentou. Só significa que aquilo que ela conseguiu fazer até aqui pode não estar sendo suficiente para diminuir essa dor. E é nesse ponto que buscar e aceitar ajuda faz diferença. Preste atenção nessa palavra: aceitar. Aceitar não é concordar. Não é se conformar. Não é anular aquilo que você sente. Aceitar é reconhecer a realidade como ela está agora. E se a realidade é que sozinho está difícil demais, reconhecer isso também permite começar a fazer algo diferente.

Você não precisa saber exatamente o que dizer para procurar alguém. Pode começar contando para uma pessoa próxima que não está bem. Pode dizer que está com medo, que está cansado, que tem pensado em morrer ou simplesmente que não está conseguindo lidar sozinho com o que está acontecendo. E além disso, é muito importante buscar ajuda profissional. Um psicólogo, um psiquiatra ou nos momentos em que a dor estiver muito intensa e houver risco de se machucar, um serviço de pronto atendimento.

Não precisa esperar piorar para pedir ajuda.

E para quem está ao lado de alguém que pensa em morrer, também não é preciso encontrar a frase perfeita. Escute, pergunte, leve a sério, não diminua aquilo que a pessoa está sentindo e ajude a procurar cuidado. Em alguns momentos, ajudar pode significar simplesmente não deixar que ela atravesse aquele momento sozinha.

Construir uma vida que vale a pena ser vivida não significa somente deixar de querer morrer. Significa poder, aos poucos, voltar a querer viver. Voltar a fazer planos, se interessar por alguma coisa, encontrar pessoas, construir relações, descobrir lugares, ter dias comuns que sejam bons, conhecer partes de si que não conhecia, viver coisas que hoje nem passam pela sua cabeça.

Quando a dor está muito grande, pode ser difícil enxergar tudo isso. E eu não quero te dizer que basta pensar positivo, que amanhã tudo vai estar bem ou que você precisa encontrar agora um grande motivo para continuar. Só quero te lembrar que o momento que você está vivendo não precisa ser a medida de toda a sua vida.

Se hoje você não consegue enxergar uma vida que vale a pena ser vivida, não precisa construí-la inteira hoje. Pode começar deixando alguém saber que você não está bem. Pode começar aceitando ajuda. E a partir daí, começar a descobrir o que precisa mudar para que a vida possa voltar a ser um lugar em que você queira estar.

Se você chegou até esse texto porque está vivendo algo assim e precisa conversar, pode entrar em contato comigo. Se eu puder te ajudar, vou te acolher e te orientar na busca pelo cuidado que você precisa.

Eu espero, de coração, que você fique bem. Que essa dor diminua e que chegue um momento em que viver não seja mais tão difícil como está sendo agora.


Tem muita coisa nessa vida que você ainda não viveu. E eu espero que você possa estar aqui para viver.





Onde buscar ajuda

Se você estiver pensando em suicídio, fale com alguém de confiança e procure atendimento profissional. Você pode buscar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um CAPS. Em situações de urgência ou quando houver risco de se machucar, procure uma UPA, pronto-socorro ou acione o SAMU pelo 192. O CVV - Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo 188, 24 horas por dia.

 
 
 

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