A infância acaba. A criança que fomos, não.
Existe uma fase da vida que passa rápido demais, mas que continua ecoando por muitos anos. Chama-se infância.
A gente cresce, trabalha, assume responsabilidades, paga contas, cria filhos, constrói uma carreira. O tempo passa. O corpo muda. A voz muda. A idade muda. Mas, em algum lugar dentro de nós, aquela criança continua existindo.
Ela aparece quando sentimos medo de não sermos suficientes. Quando acreditamos que precisamos agradar todo mundo para sermos amados. Quando temos dificuldade de confiar nas pessoas. Quando qualquer crítica parece grande demais. Quando nos culpamos por tudo. Quando sentimos vergonha de quem somos.
Muitas vezes, não é o adulto que está reagindo. É a criança. É por isso que a infância importa tanto.
Não porque ela determine completamente quem seremos, mas porque é nela que começamos a construir a forma como enxergamos a nós mesmos, os outros e o mundo. É ali que começam a nascer muitas das crenças que carregamos pela vida inteira.
"Eu preciso ser perfeito."
"Eu não sou importante."
"Se eu errar, vão me abandonar."
"Eu preciso dar conta de tudo sozinho."
Nenhuma criança nasce pensando assim. Ela aprende.
Às vezes, aprende porque foi ignorada muitas vezes. Porque ouviu críticas quando precisava de acolhimento. Porque precisou amadurecer cedo demais. Porque assumiu responsabilidades que nunca deveriam ter sido dela. Porque cresceu tentando prever o humor dos adultos para evitar conflitos. Porque viveu em um ambiente instável, imprevisível ou sem segurança emocional.
E, às vezes, basta um único episódio para deixar uma marca profunda.
Uma humilhação.
Um abandono.
Uma violência.
Uma frase dita por alguém importante.
Existem lembranças que ocupam poucos minutos da infância, mas permanecem vivas durante décadas.
Isso não significa que os pais sejam obrigatoriamente culpados por tudo.
Pais não são super-heróis. Não conseguem suprir todas as necessidades dos filhos. Erram, se cansam, também carregam suas próprias dores e muitas vezes, fizeram o melhor que conseguiram com os recursos que tinham.
Mas reconhecer isso não apaga aquilo que a criança sentiu. Porque, para uma criança, não existe a compreensão que existe para um adulto.
Ela não pensa: "meus pais estavam sobrecarregados."
Ela sente: "eu não sou importante."
Ela não conclui: "eles têm dificuldades emocionais."
Ela sente: "tem alguma coisa errada comigo."
É justamente por isso que nenhuma criança deveria precisar justificar o próprio sofrimento.
Enquanto adultos, encontramos explicações. Enquanto crianças, sentimos.
E sentir é suficiente para que uma marca seja criada.
Por isso, que existam tantos adultos vivendo no automático, repetindo padrões que juraram nunca repetir. Pessoas que entram sempre nos mesmos relacionamentos, que têm dificuldade de colocar limites, que vivem tentando provar o próprio valor, que não conseguem descansar sem culpa ou acreditar que merecem ser amadas.
Não porque escolheram viver assim. Mas porque, durante muito tempo, essa foi a única forma que aprenderam de sobreviver emocionalmente.
A boa notícia é que aquilo que foi aprendido também pode ser reconstruído. Não é simples. Não acontece de um dia para o outro. E não significa apagar a infância ou fingir que ela não existiu. Significa olhar para aquela criança com a compaixão que talvez ela nunca tenha recebido. Entender que ela não era responsável pelos conflitos dos adultos. Que ela não precisava salvar ninguém. Que ela não precisava ser perfeita para merecer amor. Que ela não tinha culpa. Cuidar da nossa criança interior não é voltar a ser criança.
É, finalmente, oferecer a ela aquilo que fez falta.
Proteção.
Segurança.
Validação.
Acolhimento.
Porque a infância termina. Mas a forma como ela foi vivida continua caminhando conosco. E, às vezes, a decisão mais importante que um adulto pode tomar é parar de cobrar daquela criança aquilo que ela nunca teve condições de oferecer.



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